Um Sorriso

Uma história que nasceu no intervalo de um sorriso — e escolheu permanecer ali.

Um Sorrisso - Outros Contos

Simples e verdadeiro é dizer que ela tem um belo sorriso. Prefiro guardá-lo de outro jeito. Ele tem início alguns milésimos de segundos antes. Há um instante de empolgação contida, ainda incerto, prestes a se revelar. O canto do nariz, primeiro a agir, se insinua; os lábios se entreabrem e dão espaço aos dentes brancos. Por um breve momento, os olhos escuros ganham protagonismo — atentos, vivos, como os de uma onça à beira do rio. Então, tudo cede à boca: uma gargalhada já sem compromisso com a timidez, que se prolonga em palavras doces. Afortunado é quem testemunha esse gesto. Sorte é já ter sido destino.

Foi assim que a vi pela primeira vez — não quando entrou, não quando falou, mas quando o sorriso decidiu nascer. Havia outras pessoas na sala, vozes que se cruzavam como fios soltos, copos apoiados sem cuidado nas bordas das mesas, uma música que ninguém realmente escutava. Ainda assim, naquele instante breve, tudo pareceu se afastar para dar lugar a esse pequeno acontecimento: o início de um sorriso.

Não sei dizer exatamente o que ela dizia. Lembro apenas do movimento, da sequência quase coreografada dos detalhes. Como se o mundo, por um segundo, tivesse sido reduzido àquela construção delicada — uma arquitetura de carne, gesto e intenção.

Talvez tenha sido ali que comecei a me perder.

Passei a reconhecê-la antes mesmo de vê-la. Havia um ritmo na sua presença, algo que antecedia o corpo. Um tipo de silêncio particular que ela carregava, mesmo quando falava. Era como se o espaço ao redor se organizasse levemente, abrindo passagem, preparando terreno.

Nos encontramos outras vezes, sempre por acaso — ou pelo tipo de acaso que começa a desconfiar de si mesmo. Nunca sozinhos. Sempre rodeados de gente, de conversas pela metade, de risadas que vinham e iam como ondas sem dono. E, ainda assim, em cada encontro, havia aquele instante.

Eu já o esperava.

Não o sorriso completo, não a gargalhada — mas o momento exato em que ele começava a existir. Aquele quase imperceptível deslocamento interno, quando algo dentro dela decidia vir à superfície.

E era sempre diferente.

Às vezes mais contido, como se pedisse licença. Outras, mais livre, escapando antes mesmo de ser totalmente pensado. Mas havia sempre esse intervalo — essa fração de tempo em que o mundo parecia suspenso, como se aguardasse a decisão final.

Nunca fui além disso.

Não por falta de vontade, mas por uma espécie de respeito que não sei explicar. Como se atravessar aquela distância significasse quebrar algo raro. Havia beleza suficiente na observação, na espera, na repetição silenciosa daquele gesto que nunca era exatamente o mesmo.

Conversávamos pouco. O necessário. Perguntas simples, respostas cuidadosas. Havia uma educação entre nós que beirava o ensaio — como dois atores que ainda não receberam todas as falas, mas já compreendem o tom da cena.

Às vezes, nossos olhares se encontravam por tempo suficiente para sugerir alguma coisa. Nada explícito. Apenas o bastante para que, mais tarde, eu revisse o momento inúmeras vezes, tentando encontrar ali um sentido que talvez nunca tenha existido.

Ou tenha.

Houve um dia em que pensei que tudo mudaria.

Era fim de tarde, e a luz atravessava o ambiente de um jeito mais lento, mais generoso. As sombras se alongavam, desenhando contornos mais suaves nas coisas. Ela estava perto da janela, apoiada com descuido, como se o corpo já conhecesse aquele lugar.

Fui até ela.

Não com coragem — mas com a ausência momentânea do medo.

Dissemos coisas pequenas. Comentários sobre o dia, sobre o calor, sobre qualquer coisa que pudesse sustentar aquele encontro sem exigir demais dele. E então, como sempre, veio o instante.

Mas dessa vez, ele demorou um pouco mais.

O silêncio entre nós não era desconfortável. Era cheio. Denso de possibilidades que não se realizavam, mas também não desapareciam. Eu podia sentir o início do sorriso antes mesmo de vê-lo, como quem percebe a mudança no vento antes da chuva.

E, por um segundo — um segundo inteiro — tive a sensação de que ela também percebia.

Que aquele gesto não era apenas dela.

Que havia, entre nós, um reconhecimento silencioso daquele instante. Como se compartilhássemos algo que não precisava ser dito para existir.

Foi o mais perto que chegamos.

Depois, tudo voltou ao normal.

As conversas retomaram seu fluxo irregular, as pessoas voltaram a ocupar o espaço, e o mundo, que havia se retraído, se expandiu novamente, levando consigo a possibilidade de qualquer ruptura.

Não houve despedida diferente. Não houve promessa, nem troca de números, nem aquelas pequenas tentativas de prolongar o que já se sabe breve.

Apenas o gesto.

Sempre ele.

Hoje, quando penso nela, não lembro de uma história. Não há começo, meio ou fim. Não há fatos suficientes para sustentar uma narrativa completa.

O que existe é esse conjunto de instantes.

Fragmentos de um acontecimento que nunca se tornou algo maior — e talvez por isso mesmo permaneça intacto. Sem desgaste, sem erro, sem as imperfeições inevitáveis de tudo que se realiza por inteiro.

Há amores que vivem do que foram.

E há aqueles que sobrevivem justamente por não terem sido.

O nosso — se é que posso chamá-lo assim — pertence ao segundo tipo.

Um amor que existiu apenas no espaço entre o que poderia ter sido e o que nunca chegou a acontecer.

E, ainda assim, às vezes me pego esperando.

Como se, em algum lugar, em algum outro tempo, aquele sorriso ainda estivesse prestes a começar.

Continua.