Todo quintal vira estádio quando tem uma bola e alguém para jogar junto.

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Na manhã seguinte, Chico acordou antes do sol ficar forte.
Desceu a escada de pijama, com a bola debaixo do braço, e parou na porta do quarto do pai.
— Pai… já é amanhã.
O pai abriu um olho só.
— Já é amanhã?
— Já. Você falou que amanhã a gente jogava.
O pai riu com a cara no travesseiro.
— Falei mesmo.
Depois do café, os dois foram para o quintal.
A grama ainda estava molhada de orvalho e fazia cócegas nos pés descalços de Chico.
— Primeiro — disse o pai —, todo estádio precisa de um gol.
Ele pegou dois chinelos e colocou um longe do outro, perto do muro.
— Esse é o seu gol.
Depois, foi até o outro lado e apontou para o espaço entre o vaso de samambaia e a árvore.
— E esse é o meu.
Chico olhou em volta.
A árvore. O muro. O varal. Os dois chinelos. O vaso.
Não parecia um estádio.
Mas, quando ele fechou os olhos e abriu de novo… parecia um pouquinho.
— Falta a torcida — disse Chico.
Nesse momento, Fubá pulou em cima do muro, sentou com o rabo enrolado nas patas e ficou olhando.
— Pronto — disse o pai. — Torcida chegou.
O jogo começou.
E o pai fez uma coisa que Chico não esperava: começou a narrar, igualzinho ao homem da televisão.
— Chico pega a bola no meio de campo… avança pela direita… passa pelo varal…
Chico riu tanto que quase tropeçou.
— …olha o marcador! Olha o marcador!
O marcador era o Ferdinando.
Ele veio correndo, com as orelhas voando para trás, e enfiou o focinho bem na bola.
Tum-tum-tum.
A bola saiu rolando para longe.
— Ferdinando! Você não pode pegar a bola!
Ferdinando abanou o rabo, todo orgulhoso, como quem diz: eu sou zagueiro.
— Zagueiro de quatro patas — narrou o pai. — Esse é difícil de passar.
Chico buscou a bola, respirou fundo e tentou de novo.
Dessa vez, desviou do Ferdinando. Desviou do vaso. Ficou de frente para o gol do pai.
— Ele vai chutar… ele vai chutar…
Chico puxou a perna para trás, com toda a força do mundo…
E chutou o ar.
A bola nem se mexeu.
Chico caiu sentado na grama. Tchof.
Silêncio.
Fubá piscou devagar lá de cima do muro.
Chico sentiu o rosto esquentar.
— Não vale — disse, bravo. — A bola fugiu.
O pai se aproximou e sentou na grama também.
— Sabe quantos chutes um craque erra?
— Nenhum.
— Muitos. Muitos, muitos, muitos. Mais do que ele acerta.
Chico olhou para o pai, desconfiado.
— Até os da Copa?
— Até os da Copa. Você viu. Quantas vezes a bola foi para fora, naquele jogo?
Chico lembrou. A bola batendo na trave. A bola passando por cima do gol. O jogador colocando as mãos na cabeça.
— Um montão.
— Pois é — disse o pai. — Todo craque já caiu sentado na grama.
Chico levantou, sacudiu o pijama e colocou a bola na frente do pé.
Dessa vez, não chutou com toda a força do mundo.
Chutou com cuidado.
A bola rolou devagarinho… devagarinho… passou entre o vaso e a árvore…
— GOOOOOOOL! — gritou o pai, fazendo a voz da televisão. — GOL DO CHICO!
Chico saiu correndo pelo quintal, com os braços abertos como asas de avião.
E aí ele inventou uma comemoração.
Três pulinhos. Uma rodada. E um soquinho no ar.
— O que é isso? — perguntou o pai.
— É a comemoração do Chico.
— Oficial?
— Oficialíssima.
Daquele dia em diante, virou regra.
Cada vez que acabava um jogo da Copa na televisão, os dois corriam para o quintal para jogar de novo. Chico queria repetir tudo: o passe, o drible, o cabeceio.
O cabeceio, ele tentou uma vez só. Doeu um pouquinho. Depois disso, decidiu que cabeceio era coisa para quando ele fosse maior.
Numa tarde, a Taila veio brincar. E o Pedro também.
Fizeram dois times: Chico e Taila contra o pai e o Pedro.
Ferdinando jogava nos dois times ao mesmo tempo.
O jogo foi tão animado que a bola foi parar em cima do varal, no meio dos lençóis, e o pai teve que buscar com o cabo da vassoura.
— A bola foi pra torcida! — gritou o Pedro.
Fubá não achou graça nenhuma. Pulou para o outro lado do muro e só voltou quando o jogo acabou.
No fim da tarde, quando o céu ficou cor de laranja, os amigos já tinham ido embora e o pai resolveu chutar uma última bola.
— Agora é a minha vez de atacar. Vai lá pro seu gol, Chico.
Chico correu para o meio dos dois chinelos.
O pai ajeitou a bola, deu três passinhos para trás… e chutou.
A bola veio rápida, direto na direção de Chico.
Ele não pensou.
Só abriu os braços.
E a bola… pof!
Parou bem ali, apertada contra a barriga dele.
O quintal ficou em silêncio.
O pai colocou as mãos na cabeça, igualzinho aos jogadores da televisão.
— QUE DEFESA! — narrou. — QUE DEFESA DO CHICO!
Chico olhou para a bola nos braços.
Não tinha sido gol.
Não tinha tido comemoração com três pulinhos.
Mas ele sentiu uma coisa diferente, quente, no peito. Uma coisa que ainda não tinha nome.
Segurou a bola um pouquinho mais forte.
— Pai… chuta de novo?
Continua.
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📚 Série 12: Chico e a Copa do Mundo · episódio 2 de 4
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