Um Passeio

Dois corpos, um caminho e tudo o que não se diz.

Um Sorriso - Outros Contos

Nunca houve um convite formal.

Nenhum “vamos?” que se sustentasse como decisão.

Mas, em uma dessas coincidências que já não pareciam tão inocentes, acabamos caminhando na mesma direção. Sem combinar. Sem anunciar. Apenas seguimos.

A rua era comum — dessas que não guardam memória de ninguém. Casas alinhadas, árvores espaçadas, um ou outro carro passando sem pressa. Nada que justificasse o momento.

E, ainda assim, havia algo.

Caminhávamos lado a lado, com uma distância sutil entre os corpos. Nem próximos demais, nem distantes o suficiente para sermos estranhos. Um equilíbrio instável, mas confortável.

Conversamos pouco.

Comentários dispersos, observações sobre o que aparecia pelo caminho — uma janela aberta, um cachorro distraído, o vento que começava a mudar de temperatura. Qualquer coisa que nos permitisse continuar ali sem precisar nomear o que aquilo era.

Em certo ponto, paramos.

Não por motivo claro. Apenas aconteceu.

E foi ali, no meio desse nada geográfico, que senti novamente o início. O mesmo de sempre. O quase. Aquele instante anterior ao sorriso, que agora eu já reconhecia como quem reconhece um velho hábito.

Mas dessa vez, ele veio mais devagar.

Como se também estivesse caminhando.

E, por um breve momento, pensei que talvez o passeio fosse isso: não o deslocamento pelo espaço, mas esse atravessar silencioso entre dois mundos que ainda não se encontram completamente.

Depois seguimos.

Como se nada tivesse acontecido.

E, talvez, nada tivesse mesmo.