Chico e o Grito de Gol

⏱ 8 min de leitura · ★ 5,0 · 🎧 narrada

Tem alegria que é tão grande que não cabe dentro da gente. Ela sai pela boca, bem alto.

Chico e O Grito de Gol | Contos de Chico

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Naquela manhã, Chico acordou com um barulho diferente.

Flap. Flap. Flap.

Era uma bandeira verde e amarela, pendurada na janela da sala, dançando com o vento.

— Pai… por que tem uma bandeira na janela?

O pai estava em cima de uma cadeira, esticando uma fita verde de um lado ao outro da parede.

— Porque hoje começa a Copa do Mundo.

Chico inclinou a cabeça.

— O que é Copa do Mundo?

O pai desceu da cadeira e sentou no sofá.

— É uma festa de futebol. Os países do mundo inteiro mandam seus times para jogar. E todo mundo assiste junto.

— O mundo inteiro?

— O mundo inteiro.

Chico arregalou os olhos.

— E quando foi a última?

— Faz quatro anos.

Chico contou nos dedos. Um, dois, três, quatro.

— Quatro anos atrás eu era um bebê!

— Um bebê bem pequenininho — riu o pai. — Então essa é a sua primeira Copa de verdade.

A primeira Copa de verdade.

Chico gostou tanto dessa frase que repetiu baixinho, só para ouvir de novo.

À tarde, o pai trouxe uma camiseta amarela. Era dele, grande demais. Em Chico, virou quase um vestido, e as mangas chegavam nos cotovelos.

— Ficou perfeita — disse o pai.

A pipoca estourava na cozinha: poc… poc… poc-poc-poc!

Ferdinando deitou no tapete, bem na frente da televisão, com as orelhas caídas em cima das patas.

E, lá na janela, Fubá se acomodou em cima do parapeito, como quem tinha comprado ingresso.

O jogo começou.

Chico nunca tinha visto tanta gente num lugar só. O estádio parecia um formigueiro colorido, cheio de bandeiras e barulho.

— Pai, qual é o nosso?

— O de amarelo.

— E o outro?

— O outro também quer ganhar.

Chico ficou quietinho, olhando a bola ir de um lado para o outro.

— Já é gol?

— Ainda não.

— E agora?

— Ainda não.

— E agora?

— Filho… quando for gol, você vai saber.

Chico cruzou os braços e esperou.

A bola foi para um lado.

Voltou.

Foi para o outro.

Até que um jogador de amarelo correu, correu, correu… e chutou.

A bola entrou.

— GOOOOOOOOL!

O pai pulou do sofá. A pipoca voou. Ferdinando latiu. Fubá pulou da janela para fora, assustado.

E Chico, sem nem pensar, abriu a boca e gritou também:

— GOOOOOOOOOOOL!

Gritou tão alto que a garganta fez cócegas.

Aí aconteceu uma coisa que ele não esperava.

Lá fora, a rua inteira gritou junto.

O vizinho da frente. A moça da casa amarela. Alguém lá longe, soltando um foguete: BUMMMM!

Chico correu até a janela.

— Pai! A rua toda viu o gol!

— A cidade toda viu — disse o pai, pegando Chico no colo. — Quando é gol na Copa, todo mundo grita ao mesmo tempo.

Chico ficou pensando nisso.

Um gol só… e um grito do tamanho da cidade.

Depois daquele dia, eles assistiram a muitos jogos.

Jogos de times com camisas vermelhas, azuis, listradas. Chico aprendeu as bandeiras. Uma tinha um sol. Outra tinha uma cruz. Outra tinha uma folha.

Nos jogos que não eram do Brasil, ele escolhia torcer para o time com a camisa mais bonita.

— Esse critério é ótimo — dizia o pai.

Até que chegou o dia do jogo contra a Noruega.

Chico acordou cedo. Vestiu a camiseta-vestido. O pai pintou uma listra verde e outra amarela em cada bochecha dele.

— Hoje vai ter grito de gol — disse Chico, confiante.

O jogo começou.

Chico nem piscava.

Mas, dessa vez, quem correu, correu, correu e chutou… foi um jogador de camisa vermelha.

A bola entrou.

E a rua… ficou em silêncio.

Um silêncio estranho. Nenhum foguete. Nenhum grito.

Só um cachorro latindo lá longe.

— Pai… foi gol deles?

— Foi.

Chico olhou para a televisão com a testa franzida.

— Tudo bem. Agora a gente faz.

Esperou.

— Agora?

— Ainda não.

— E agora?

O pai não respondeu. Só fez um carinho no cabelo dele.

O tempo foi passando. A bola ia e voltava. E o grito de gol, aquele que Chico estava guardando na garganta, não saiu.

Até que o juiz apitou três vezes.

Priii. Priii. Priiiiiiii.

Acabou.

O Brasil tinha perdido.

Chico ficou parado. Depois, os olhos encheram d’água.

— Não é justo — disse, com a voz tremida. — Eu tava com o grito pronto.

O pai desligou a televisão e sentou no chão, ao lado dele.

— Eu sei, filho. Hoje não foi o nosso dia.

— Os jogadores tão tristes?

— Hoje, estão. Bem tristes.

Chico fungou.

— E amanhã?

— Amanhã eles acordam, calçam a chuteira e vão treinar de novo. É assim no futebol.

Chico limpou o nariz na manga da camiseta-vestido.

O pai ficou quieto um pouquinho. Depois disse:

— Sabe o que tá acontecendo agora, lá na Noruega?

— O quê?

— Tem um menino, do seu tamanho, pulando no sofá. Com a bochecha pintada de vermelho e branco.

Chico imaginou o menino.

Pulando no sofá.

Gritando.

— Ele gritou gol também?

— Bem alto. A rua dele inteira gritou junto.

Chico pensou mais um pouco.

Era estranho ficar triste e, ao mesmo tempo, gostar de saber que tinha um menino feliz lá longe.

— Pai… no futebol alguém sempre fica triste?

— Quase sempre — respondeu o pai. — Por isso a gente aprende a ganhar e a perder junto. O importante é continuar gostando do jogo.

Chico olhou para a bola de futebol dele, parada no canto da sala.

Levantou, pegou a bola e abraçou com força.

— Pai… amanhã a gente joga?

O pai sorriu. Tinha uma manchinha verde e amarela na bochecha dele também, de tanto abraçar Chico.

— Amanhã, a gente joga.

E, naquela noite, Chico dormiu com a bola do lado do travesseiro.

O grito de gol continuava guardadinho.

Esperando o próximo jogo.

Continua.

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📚 Série 12: Chico e a Copa do Mundo · episódio 1 de 4

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