Chico e o Último Balão

⏱ 8 min de leitura · ★ 5,0 · 🎧 narrada

Quando a festa acaba, as lembranças começam.

Chico e O Último Balão | Contos de Chico

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O último amigo foi embora quando o céu já estava azul-escuro.

Chico ficou no portão, acenando, até o carro da Ana virar a esquina.

Depois, voltou para o quintal.

Estava tudo quieto.

As bandeirinhas balançavam sozinhas. Na mesa, sobravam pratinhos com farelo de bolo, copos pela metade e a coroa de papel que o Pedro tinha esquecido.

Os balões… quase todos tinham estourado ou murchado durante as brincadeiras.

Só tinha sobrado um.

Um balão vermelho, amarrado no pé da cadeira, que balançava devagar com o vento da noite.

Chico sentou na grama e ficou olhando para ele.

O pai apareceu com um saco de lixo na mão e parou.

— Que carinha é essa, aniversariante?

— Acabou — disse Chico, baixinho.

— O que acabou?

— O meu aniversário. Acabou tudo.

O pai deixou o saco de lado e sentou na grama, bem pertinho.

Ficaram um tempo em silêncio, ouvindo os grilos.

— Lembra do pedido que você fez naquele primeiro bolo? — perguntou o pai. — O que a gente fez junto, de manhã?

Chico lembrou.

— Eu pedi pra aquele momento nunca acabar.

— E o que a gente combinou?

Chico encostou a mão no peito.

— Que a gente ia guardar aqui dentro.

— Então — disse o pai, levantando-se —, que tal a gente guardar de verdade?

Chico franziu a testa.

— Como assim?

— Espera aqui.

O pai entrou em casa e voltou com uma caixa de sapatos vazia.

— Isso aqui — disse, entregando a caixa — é uma caixa de lembranças. Tudo o que a gente não quer esquecer, a gente coloca aqui dentro.

Chico olhou para a caixa. Depois, para o quintal.

E saiu correndo.

Primeiro, trouxe uma bandeirinha que tinha caído na grama.

— Pra lembrar que o quintal ficou vestido de festa.

Depois, correu até o quarto e voltou com uma folha seca, bem guardadinha entre as mãos.

— O que é isso? — perguntou o pai.

— A folha que eu resgatei na piscina. No dia do barco. Ela tava na minha janela.

O pai sorriu.

— Essa é importante.

— Muito importante — concordou Chico, colocando a folha no fundo da caixa, com cuidado para não quebrar.

Aí foi a vez do pai. Ele tirou alguma coisa do bolso da camisa e abriu a mão devagar.

Era uma vela pequenininha, com o pavio preto.

Chico arregalou os olhos.

— É a vela do nosso bolo!

— Eu guardei — disse o pai. — Achei que um dia ia servir.

Chico segurou a vela como se fosse feita de ouro e colocou na caixa, bem no meio.

Por último, pegou papel e lápis de cor e sentou à mesa.

Desenhou a árvore. As bandeirinhas. A Taila de laço amarelo. O Pedro de coroa. A Ana com o barquinho de papel. Ferdinando. Fubá no muro. O pai. E ele mesmo, no meio de todo mundo, com um sorriso enorme.

— Pronto — disse, dobrando o desenho. — Esse é o Parabéns.

Na tampa, o pai ajudou Chico a escrever uma palavra, letra por letra:

L-E-M-B-R-A-N-Ç-A-S.

As letras ficaram meio tortas.

— Ficaram perfeitas — disse o pai.

Chico olhou para o balão vermelho, ainda balançando na cadeira.

— E o balão? Ele não cabe na caixa.

— Não cabe — concordou o pai. — Mas pode dormir no seu quarto hoje.

Chico desamarrou o balão e levou para dentro, segurando a fitinha como quem leva um cachorro para passear. Amarrou no pé da cama.

Antes de deitar, o pai chamou:

— Vem cá. Encosta ali na porta.

Chico encostou as costas no batente da porta do quarto, onde havia um risquinho antigo de lápis.

O pai colocou a mão em cima da cabeça dele e fez um risquinho novo.

Chico se virou para olhar.

O risco novo estava acima do antigo.

— Eu cresci!

— Um pouquinho — disse o pai. — Sem pressa.

Chico deitou na cama, abraçado na caixa de lembranças. O balão flutuava lá em cima, pertinho do teto.

— Pai… amanhã o balão vai estar aqui?

O pai pensou antes de responder.

— Vai. Mas talvez um pouco mais baixinho. Balão também fica cansado depois de uma festa.

Chico ficou olhando para o balão até os olhos pesarem.

Na manhã seguinte, a primeira coisa que ele fez foi olhar para cima.

O balão não estava mais no teto.

Estava lá embaixo, quase encostando no chão, meio enrugadinho, como quem dormiu demais.

Chico sentou na cama e ficou olhando para ele por um tempo.

Depois, levantou, desamarrou a fitinha vermelha com cuidado… e colocou dentro da caixa de lembranças, junto da vela, da folha, da bandeirinha e do desenho.

O pai apareceu na porta, ainda de pijama.

— Tudo bem, filho?

Chico fechou a tampa da caixa e sorriu.

— Tudo bem, pai. O balão foi embora… mas a fitinha ficou.

O pai se abaixou até ficar da altura dele.

— É assim mesmo. As festas acabam. Os balões murcham. As velas apagam.

— Mas a gente guarda — completou Chico.

— A gente guarda.

Chico guardou a caixa na prateleira, bem ao lado do barco de polícia e do barquinho de papel.

E, naquele dia comum, sem bolo e sem balão, ele descobriu que o aniversário não tinha acabado de verdade.

Só tinha mudado de lugar.

Tinha ido morar ali dentro.

No peito.

E na caixa com letras tortas escrito LEMBRANÇAS.

Fim.

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📚 Série 11: Chico e seu aniversário · episódio 4 de 4

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