Quando a festa acaba, as lembranças começam.

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O último amigo foi embora quando o céu já estava azul-escuro.
Chico ficou no portão, acenando, até o carro da Ana virar a esquina.
Depois, voltou para o quintal.
Estava tudo quieto.
As bandeirinhas balançavam sozinhas. Na mesa, sobravam pratinhos com farelo de bolo, copos pela metade e a coroa de papel que o Pedro tinha esquecido.
Os balões… quase todos tinham estourado ou murchado durante as brincadeiras.
Só tinha sobrado um.
Um balão vermelho, amarrado no pé da cadeira, que balançava devagar com o vento da noite.
Chico sentou na grama e ficou olhando para ele.
O pai apareceu com um saco de lixo na mão e parou.
— Que carinha é essa, aniversariante?
— Acabou — disse Chico, baixinho.
— O que acabou?
— O meu aniversário. Acabou tudo.
O pai deixou o saco de lado e sentou na grama, bem pertinho.
Ficaram um tempo em silêncio, ouvindo os grilos.
— Lembra do pedido que você fez naquele primeiro bolo? — perguntou o pai. — O que a gente fez junto, de manhã?
Chico lembrou.
— Eu pedi pra aquele momento nunca acabar.
— E o que a gente combinou?
Chico encostou a mão no peito.
— Que a gente ia guardar aqui dentro.
— Então — disse o pai, levantando-se —, que tal a gente guardar de verdade?
Chico franziu a testa.
— Como assim?
— Espera aqui.
O pai entrou em casa e voltou com uma caixa de sapatos vazia.
— Isso aqui — disse, entregando a caixa — é uma caixa de lembranças. Tudo o que a gente não quer esquecer, a gente coloca aqui dentro.
Chico olhou para a caixa. Depois, para o quintal.
E saiu correndo.
Primeiro, trouxe uma bandeirinha que tinha caído na grama.
— Pra lembrar que o quintal ficou vestido de festa.
Depois, correu até o quarto e voltou com uma folha seca, bem guardadinha entre as mãos.
— O que é isso? — perguntou o pai.
— A folha que eu resgatei na piscina. No dia do barco. Ela tava na minha janela.
O pai sorriu.
— Essa é importante.
— Muito importante — concordou Chico, colocando a folha no fundo da caixa, com cuidado para não quebrar.
Aí foi a vez do pai. Ele tirou alguma coisa do bolso da camisa e abriu a mão devagar.
Era uma vela pequenininha, com o pavio preto.
Chico arregalou os olhos.
— É a vela do nosso bolo!
— Eu guardei — disse o pai. — Achei que um dia ia servir.
Chico segurou a vela como se fosse feita de ouro e colocou na caixa, bem no meio.
Por último, pegou papel e lápis de cor e sentou à mesa.
Desenhou a árvore. As bandeirinhas. A Taila de laço amarelo. O Pedro de coroa. A Ana com o barquinho de papel. Ferdinando. Fubá no muro. O pai. E ele mesmo, no meio de todo mundo, com um sorriso enorme.
— Pronto — disse, dobrando o desenho. — Esse é o Parabéns.
Na tampa, o pai ajudou Chico a escrever uma palavra, letra por letra:
L-E-M-B-R-A-N-Ç-A-S.
As letras ficaram meio tortas.
— Ficaram perfeitas — disse o pai.
Chico olhou para o balão vermelho, ainda balançando na cadeira.
— E o balão? Ele não cabe na caixa.
— Não cabe — concordou o pai. — Mas pode dormir no seu quarto hoje.
Chico desamarrou o balão e levou para dentro, segurando a fitinha como quem leva um cachorro para passear. Amarrou no pé da cama.
Antes de deitar, o pai chamou:
— Vem cá. Encosta ali na porta.
Chico encostou as costas no batente da porta do quarto, onde havia um risquinho antigo de lápis.
O pai colocou a mão em cima da cabeça dele e fez um risquinho novo.
Chico se virou para olhar.
O risco novo estava acima do antigo.
— Eu cresci!
— Um pouquinho — disse o pai. — Sem pressa.
Chico deitou na cama, abraçado na caixa de lembranças. O balão flutuava lá em cima, pertinho do teto.
— Pai… amanhã o balão vai estar aqui?
O pai pensou antes de responder.
— Vai. Mas talvez um pouco mais baixinho. Balão também fica cansado depois de uma festa.
Chico ficou olhando para o balão até os olhos pesarem.
Na manhã seguinte, a primeira coisa que ele fez foi olhar para cima.
O balão não estava mais no teto.
Estava lá embaixo, quase encostando no chão, meio enrugadinho, como quem dormiu demais.
Chico sentou na cama e ficou olhando para ele por um tempo.
Depois, levantou, desamarrou a fitinha vermelha com cuidado… e colocou dentro da caixa de lembranças, junto da vela, da folha, da bandeirinha e do desenho.
O pai apareceu na porta, ainda de pijama.
— Tudo bem, filho?
Chico fechou a tampa da caixa e sorriu.
— Tudo bem, pai. O balão foi embora… mas a fitinha ficou.
O pai se abaixou até ficar da altura dele.
— É assim mesmo. As festas acabam. Os balões murcham. As velas apagam.
— Mas a gente guarda — completou Chico.
— A gente guarda.
Chico guardou a caixa na prateleira, bem ao lado do barco de polícia e do barquinho de papel.
E, naquele dia comum, sem bolo e sem balão, ele descobriu que o aniversário não tinha acabado de verdade.
Só tinha mudado de lugar.
Tinha ido morar ali dentro.
No peito.
E na caixa com letras tortas escrito LEMBRANÇAS.
Fim.
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📚 Série 11: Chico e seu aniversário · episódio 4 de 4
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